Thursday, June 4, 2009

A sós com a chuva

Por vezes a poesia escreve-se nos mais simples quadros que a vida nos vai pintando no dia a dia e só mesmo com olhos de quem embala no peito o doce afago que existe nas palavras que o poema nos dita pode pintar com letras de sonho aquilo que a alma contempla a cada passo de uma realidade que mesmo desenhada em traços de tristeza pode ainda conhecer um leve toque de cor.

A chuva hoje resolveu brindar-me com o seu sorriso molhado e quase numa atitude atrevida desafiou o sol que se fazia presente neste dia de Junho.

Foi como uma bênção materializada em gotas de água que me beijavam a pele e me tocavam a alma numa energia balsâmica que purifica e renova.

Foi mágica a companhia da chuva que hoje resolveu tomar café comigo na esplanada transformando um momento quase rotineiro na minha hora do almoço em espaço privilegiado para eu deixar-me voar nas asas daquela poesia que desliza entre o silêncio das palavras e nos transporta ao esquecimento de nós mesmos deixando-nos ali abandonados numa solidão partilhada com o instante.



Lendo em tempos uma frase que nos convidava a ao contemplarmos uma flor nos lembrássemos do seu autor elevo ao alto o meu canto de gratidão pelo sublime abraço que hoje me foi dado pelo criador instrumentalizado numa banal manifestação da natureza mas que em mim se manifestou materializando a mais terna das bênçãos.

Sunday, May 17, 2009

Mãe que te dei eu?

Mãe, quando nasci o teu sorriso irrompeu ao mesmo tempo que o meu primeiro choro lembras-te?

Contaste-me que o sino da igreja tocava as 2:30 da madrugada de um dia que já vai longe num ano longínquo de 1971.

Mãe lamento que o teu sorriso se tenha transformado em lágrimas quando te contaram que o teu filho teria de ver o mundo de forma diferente. É cruel mãe, mas a lei da vida é assim e esta teria de ser a nossa cruz…

Carregaste a tua cruz em busca de que o seu peso fosse menor mas a luz que se acendeu na tua esperança e nos meus olhos seria tão efémera como a de uma estrela cadente que parece querer iluminar o mundo e depois se escurece no negro do universo.

Lutei e tu sabes que lutei para que a dureza da nossa cruz fosse menos fria e mórbida como nos faziam crer e acho que consegui de certo modo que por vezes o peso que ambos carregamos ficasse mais aliviado.

Sabes, brincava com a cruz mas outra maior surgiria na minha vida e claro na tua… que te dei eu de bom mãe?

Nada.

Dei-te uma cruz para carregar e dessa cruz outra se ergueu do calvário que eu mesmo criei nas nossas vidas e hoje aqui estamos nós a levar em ombros o fruto dos meus devaneios…

Só queria que me perdoasses por tudo quanto não fui capaz de te dar e que entendas que o teu sofrimento sempre foi muito meu embora não te mostrasse como talvez deveria mostrar.

As tuas lágrimas regaram o meu coração e depositaram nele uma capacidade de amar que ninguém até hoje entendeu e quanto sofri por querer entregar o amor que tu me ensinaste a plantar mas que talvez eu não soubesse regar da melhor forma ou que a terra onde por vezes o colocava se empedernia e não deixava germinar a semente que tantas vezes eu quis ver transformada em flor.

Mãe, não culpo ninguém pelo que hoje sou mas culpo-me por não saber ter sido aquilo que tu sonhaste…

As janelas da rua onde caminho fecham-se à minha passagem e a noite está fria. Quero correr para ti mas as pernas estão a ficar geladas e o meu corpo teima em não obedecer aos desejos da alma.

Mãe porque não fiquei eternamente pequeno e preso ao teu colo?

Porque razão me tornei crescido e não usei da forma que me ensinaste A liberdade que escreveste com letras de confiança no livro da minha vida?

Hoje só te peço que me perdoes e esqueças o peso da cruz que fui nos teus dias e que não me julgues por nunca te ter dito a ti que sempre o mereceste a palavra que tantas vezes disse a quem a jogava facilmente num arquivo morto do corpo ou da alma…

Mãe acredita que nunca dizendo sempre o senti e diz que me perdoas e que acreditas que As letras da palavra amo-te estão impressas para sempre na minha alma e que te contemplo do alto da minha humildade por todos os dias de todas as vidas que ainda tenha de percorrer.

Thursday, August 21, 2008

Vou lançar o meu canto ao vento

Vou pegar no meu canto e lançar ao vento o seu grito;

Vou pedir ao vento que o leve e o faça ecoar por montes e vales e o transporte na mais suave das brisas ou então que o faça girar no mais agitado dos turbilhões.

Vai meu canto levado pelo vento e liberta nas suas asas toda a tua força…

Liberta as lágrimas e faz abrir os sorrisos, solta as amarras que te prendem na minha garganta e vai livre tocando corpos e almas que se mostrem abertos ao teu cantar.

Vai meu canto; sei que vais mas voltas porque em mim encontras refúgio para descansar das tuas viagens mas depois voltas a partir com o vento levando contigo retalhos desta alma que se entrega a ti e faz de ti o seu grito.

Quem te escutará meu canto?

Será que chegas ao destino ou será que te perdes pelo caminho brincando com flores e pássaros entoando com eles um hino ao criador?

Brinca meu canto com as notas e as palavras das canções que te entrego e que de mim são fiel retrato revelado nesta alma que por de traz de um sorriso esconde uma lágrima triste que teima em correr desaguando em ti, e contigo voando nas asas do vento.

Vai meu canto que eu fico a esperar que voltes e me tragas a voz de outros cantos que como tu se deixam levar pelo vento e que se entregam a corpos e almas que estejam abertos ao seu cantar.

Wednesday, August 13, 2008

Queria chorar

Queria chorar…

Queria chorar porque sinto que só derramando um rio de lágrimas poderei voltar a sorrir;

Queria regar com uma chuva de lágrimas esta alma que se revolta em dores e gritos tantas vezes sufocados pelo nó que lhe aperta a garganta…

Queria poder trazer em forma de pranto tudo o que nem eu sei; mas sei que queria chorar.

Queria poder sem limites e sem vergonha de o fazer abrir um longo mar de lágrimas e nele fazer navegar todas as emoções que se atropelam num turbilhão de sentimentos que me dilaceram a alma numa luta tremenda pelo poder de serem eles a decidir o que devo sentir…

Queria chorar e pronto…

Tal como a criança que se manifesta pelo choro queria eu fazer-me notar pelas lágrimas que sem preconceitos me jorrariam dos olhos e se transformariam num espelho de água onde finalmente eu me poderia olhar para entender esta urgente razão de querer chorar…

Um colo?

Sim um colo… que sítio mais reconfortante para abrir um berreiro sem tamanho onde me liberte de mim e fuja para bem longe do meu próprio choro…

Um abraço?

Sim um abraço. Que gesto maravilhoso para quem depois de chorar pode finalmente reaprender a sorrir…

Monday, April 28, 2008

Minha paz

E tu minha paz onde te encontras?

Procuro por ti nos recantos mais fundos de uma alma que se revê em cada momento na tua ausência.

Por tantas e tantas vezes julgo no delírio das minhas miragens vislumbrar a tua candura pousada na flor que contemplo e se reflecte qual narciso no espelho de +agua de um olhar que te busca no infinito.

Sorris para mim e estendes-me a tua mão que ameninadamente recolhes para que não a agarre, e foges para longe gozando o prazer desta saudade que é de ti.

E tu minha paz onde te escondes?

Julguei encontrar-te em tantos e tantos colos onde deitei minha cabeça num descanso filial que se revelava a cada passo num cançasso que desnudava o meu desespero enquanto tu próxima mas distante, gozavas o prazer de mais uma vez escapares por entre os dedos da minha esperança

Um dia contaram-me que não existes; que és fruto de devaneios de quem perdendo-se procura reencontrar-se…

Eu acredito que existes sim e que me foges; que te dá um cruel prazer a minha procura por ti; mas que secretamente também me desejas abraçar.

Escuta minha paz:

Um dia teremos de nos tocar; sentir-nos um ao outro como quem pertencendo-se recusa entregar-se mas que acaba por se render ao destino que indelével e implacável se faz cumprir no espaço e no tempo que apenas a ele obedecem.

Oh minha paz como anseio encontrar-te; repousar na tua candura o meu olhar vazio de ti, agarrar com força a tua mão de menina esquiva e sobretudo pousar a minha cabeça no teu colo num descanso filial quem sabe por um minuto, quem sabe por uma vida ou mesmo por várias vidas num abraço eterno de quem perdido finalmente se encontra.

Tuesday, March 11, 2008

Momentos

Há momentos que são hinos…

Levitam na nossa alma nos acordes harmoniosamente saídos da orquestra das nossas emoções e escrevem com notas de saudade uma pauta de revelações que tangidas nas cordas da alma executam a sublime melodia do tempo que se esquece de ser tempo e se torna intemporal…

Há momentos que são pássaros...

Voam no céu da nossa recordação e com o seu canto fazem renascer em nós a renovadora Primavera que convida ao tímido desabrochar de ilusões que se esquecem de ser ilusões e se transformam em verdade…

Há momentos que são rios…

Correm cristalinos por entre os nossos sentimentos e qual fonte de vida matam a nossa cede de sonhos que se esqueçam de ser sonhos e se transformem em realidade.

Há momentos que são abraços…

Afagam a nossa fragilidade e apertam-nos contra o seu peito fazendo que acreditemos pelo menos nem que seja por um instante na força de um momento que se esquece de ser momento e se transforma em eternidade…

Monday, March 10, 2008

Em busca de mim...

Em busca de mim, em busca da vida para a qual tantas e tantas vezes não encontrei razão de ser, em busca do sonho que jamais me atrevi a sonhar, em busca da resposta para a pergunta que tantas vezes me fiz…

Porque razão estou aqui?

Em busca do caminho que me leve a tal felicidade que tantas vezes parece estar ao alcance das minhas mãos e se escapa por entre os meus dedos nem se deixando tocar para que eu não lhe sinta a textura, e por outras se abraça a mim com tal força que quase me sufoca com as suas promessas de ter chegado para ficar e quando eu acredito que fala a verdade, volta a escapar-se por entre as frinchas da minha incredulidade perante a sua fuga…

Em busca do segredo que eu mesmo escondo de mim…

Em busca de ser mais eu e menos aquilo que os outros querem que eu seja, em busca de escrever a minha própria história e não me limitar a ouvir contar o que alguém contou que ouviu contar de alguém que por nada mais ter que fazer resolveu falar de mim…

Em busca da minha verdadeira identidade…

Em busca do eu que se refugia num secreto recanto da minha alma e brinca com os meus sonhos divertindo-se a entrelaçá-los com os meus desejos e por muitas vezes se esquece de os arrumar permitindo que a minha realidade se deixe levar pela tentação de os tomar como seus…

Em busca de um dia puder abraçar-me a mim mesmo e sentir a alegria do reencontro.