quarta-feira, 11 de julho de 2012
Pedido à noite
Anoite descaía o seu manto sobre a cidade que lentamente se deixava embalar pelo sussurro do mar que mesmo ao longe se fazia presente ora pelo murmurar das ondas revoltadas que penetravam a areia numa orgia incessante de vai e vem disfrutando dos poucos momentos de vida que lhes restam antes de se desfazerem em espuma e numa vertigem orgásmica se deixarem devolver ao oceano esperando em qualquer hora voltar ao seu efémero encontro com a terra enquanto se perdem e confundem com outras ondas vindas de outros encontros em outras paragens.
O cheiro dos jasmins verdes que de dia se fecham e de noite se abrem qual Cinderellas que ao condão da magia da noite passam de criada a princesa daí o título pomposo de damas da noite que lhes foi concedido, transportavam-no a outros cheiros de outras noites tão diversas daquela em que na mesma varanda se fazia acompanhar de um copo de limonada mas que por convidada se tinha feito anunciar uma tal de solidão que tempos atrás não se dignava invadir o espaço onde o cheiros das damas se cruzava com cheiros de outros perfumes de beijos e sentimentos a que não eram alheios os sussurros do mar que mesmo ao longe procuravam escutar aqueles sussurros feitos segredo entre silêncios e palavras encastrados em suspiros e outros sons próprios de uma banda sonora que só escuta quem se envolve nas melodias harmónicas e confusas que só o coração em dueto com a alma sabem executar.
Ali se encontrava contemplando uma tela em que nitidamente transcorria a história que bem podia ter sido copiada das páginas de um livro mas que se mostrava real e se fazia presente tangível e Etéria qual amálgama de sensações que misturava corpo e espírito de forma tão una de virtude e pecado chegando a sentir que pecar por vezes pode ser sublime manifestação dos mais puros estados de alma.
Eram momentos que vividos de mãos dadas com a solidão que insistia em marcar o seu espaço que se alargava e se estreitava numa contracção de segundos em que aquela varanda era um deserto de imenso areal queimando-lhe as entranhas com o calor da saudade ou era gélida cela de prisão que o confinava aos pensamentos que lhe traziam de volta a liberdade que lhe escapara por entre os dedos como se fora uma serpente que se esgueira na derradeira hora ao pau que lhe quer tolher a vida, que o faziam envolver-se no manto da noite e pedir-lhe para o agasalhar qual mãe que estreita nos braços o filho desprotegido e frágil que naquele colo terno procura forças para continuar.
Era nessas horas que pedia à noite para o embalar num sono sem sonhos porque sonhar já por si o fazia acordar para a mesma realidade que o perseguia implacável e calculista como pena que se cola ao condenado para que este a cumpra sem clemência ou ensejo de lograr fugir.
Queria adormecer numa paz que só encontra quem placidamente repousa nos braços da noite e se entrega ao seu canto de embalar feito de sons e silêncios e pedir-lhe que mesmo quando o sol a substituísse e ela fosse adormecer o outro lado da terra o levasse para que jamais pudesse deixar de na companhia da solidão que de indesejada agora passara a cúmplice, jamais deixasse de se achar naquela varanda sentindo o odor das damas que só se abriam na noite ou imaginando os sussurros das orgias do mar continuasse a assistir na tela imaginária à história que embora parecendo cópia das páginas de qualquer livro ficou claramente longe de ter um final feliz.
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