Mãe, quando nasci o teu sorriso irrompeu ao mesmo tempo que o meu primeiro choro lembras-te?
Contaste-me que o sino da igreja tocava as 2:30 da madrugada de um dia que já vai longe num ano longínquo de 1971.
Mãe lamento que o teu sorriso se tenha transformado em lágrimas quando te contaram que o teu filho teria de ver o mundo de forma diferente. É cruel mãe, mas a lei da vida é assim e esta teria de ser a nossa cruz…
Carregaste a tua cruz em busca de que o seu peso fosse menor mas a luz que se acendeu na tua esperança e nos meus olhos seria tão efémera como a de uma estrela cadente que parece querer iluminar o mundo e depois se escurece no negro do universo.
Lutei e tu sabes que lutei para que a dureza da nossa cruz fosse menos fria e mórbida como nos faziam crer e acho que consegui de certo modo que por vezes o peso que ambos carregamos ficasse mais aliviado.
Sabes, brincava com a cruz mas outra maior surgiria na minha vida e claro na tua… que te dei eu de bom mãe?
Nada.
Dei-te uma cruz para carregar e dessa cruz outra se ergueu do calvário que eu mesmo criei nas nossas vidas e hoje aqui estamos nós a levar em ombros o fruto dos meus devaneios…
Só queria que me perdoasses por tudo quanto não fui capaz de te dar e que entendas que o teu sofrimento sempre foi muito meu embora não te mostrasse como talvez deveria mostrar.
As tuas lágrimas regaram o meu coração e depositaram nele uma capacidade de amar que ninguém até hoje entendeu e quanto sofri por querer entregar o amor que tu me ensinaste a plantar mas que talvez eu não soubesse regar da melhor forma ou que a terra onde por vezes o colocava se empedernia e não deixava germinar a semente que tantas vezes eu quis ver transformada em flor.
Mãe, não culpo ninguém pelo que hoje sou mas culpo-me por não saber ter sido aquilo que tu sonhaste…
As janelas da rua onde caminho fecham-se à minha passagem e a noite está fria. Quero correr para ti mas as pernas estão a ficar geladas e o meu corpo teima em não obedecer aos desejos da alma.
Mãe porque não fiquei eternamente pequeno e preso ao teu colo?
Porque razão me tornei crescido e não usei da forma que me ensinaste A liberdade que escreveste com letras de confiança no livro da minha vida?
Hoje só te peço que me perdoes e esqueças o peso da cruz que fui nos teus dias e que não me julgues por nunca te ter dito a ti que sempre o mereceste a palavra que tantas vezes disse a quem a jogava facilmente num arquivo morto do corpo ou da alma…
Mãe acredita que nunca dizendo sempre o senti e diz que me perdoas e que acreditas que As letras da palavra amo-te estão impressas para sempre na minha alma e que te contemplo do alto da minha humildade por todos os dias de todas as vidas que ainda tenha de percorrer.
domingo, 17 de maio de 2009
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