quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Maria da minha saudade

Se a tua alma ainda estivesse aprisionada aos laços do corpo franzino que carregaste durante 77 anos na tua peregrinação terrena, soprarias hoje as velas dos 93 anos, e certamente cantaríamos os parabéns à luz das velas que sobre o bolo iluminavam a sala da tua tosca casa campestre onde tantas vezes neste dia 17 de Outubro assinalamos com alegria a passagem de mais um ano da tua chegada a esta existência.

Sabes agora quase 16 anos depois de nos teres deixado mergulhados nesta saudade que ainda hoje nos dói, e que te encontras no espaço onde o tempo já deixou de contar e todos os valores tantas vezes apregoados neste planeta de provação não passam de efémeras ilusões de seres aprisionados às coisas da matéria, quero cantar-te os parabéns e ofertar-te um beijo, e que saudades tenho de te dar um beijo, e ouvir as tuas histórias que mesmo sendo repetidas traziam sempre o encanto de quem escuta pela primeira vez a mais linda das narrativas.

Do alto do teu tempo que jamais passa, olha por nós e com a tua força que sempre nos conduzia em frente, enchuga o nosso lacrimejar de saudade e transforma como tantas vezes fizeste as nossas lágrimas em sorrisos e as nossas incertezas em esperanças.

Sabes não há um dia na minha vida em que os teus ensinamentos não ecoem por todos os recantos do meu ser e em que as tuas palavras sábias não se façam presentes nas páginas deste livro que é o dia a dia de existir.

Sei que agora a tua voz tem o timbre do canto dos anjos, que o teu corpo franzino se envolve da luz celeste e que na brisa que por vezes me toca o rosto posso ainda sentir o teu beijo mas nem assim se fecha a ferida desta saudade egoísta de quem te queria aqui ao lado para te apertar a mão enrugada pelo trabalho e pelos anos e deitar a cabeça no teu colo escutando as tuas histórias e hoje particularmente sair da vida e da agitação de uma rotina sempre igual para voltar à tua tosca casa campestre e à luz das velas do teu bolo de aniversário, cantar-te parabéns avó Maria e envolver-te num abraço que transpõe a distância que existe entre a vida e a morte; entre o corpo e a alma; entre o amor e a saudade.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Adriano a trova de um tempo que não passa

Perguntás-te ao vento que passa notícias de um país que cantaste em trovas, baladas e do qual também soubeste beber como poucos a seiva das suas raízes musicais.

O vento continua a falar da desgraça de um Portugal que sonhaste um dia livre mas que continua amarrado às melodias do teu canto que se faz presente clamando no coração dos que sofrem não das injustiças da ditadura mas das enfermidades de uma democracia que está bem longe de ser justa.

Mesmo na noite mais triste basta abraçar uma guitarra e cantar docemente as notas que um dia entoaste e quase em jeito de prece pedir ao tempo que jamais apague de nós a lembrança da tua voz que há 25 anos se calou por força da morte mas que em tempo de servidão a esta saudade que nos toma de assalto continuamos tal como tu sempre fizeste a resistir e a dizer não.

Adriano onde estiveres canta para nós a esperança que a cada dia ainda guardamos de que o teu sonho se torne a nossa realidade